EXCLUSIVO – A Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) apresentou na noite dessa quarta-feira (8) em Brasília, a quarta edição da Agenda Institucional do Mercado Segurador 2026 com foco na ampliação do papel do setor como instrumento de política pública. O documento também traz um balanço das ações de 2025 e apresenta as propostas regulatórias e econômicas para ampliar a participação do seguro na economia brasileira.
Na abertura do evento, o presidente do Conselho Diretor da CNseg, Roberto Santos, reforçou a necessidade de reposicionar o seguro como elemento central da estratégia de desenvolvimento do país. Segundo ele, diante de um cenário de intensificação das mudanças climáticas e crescente imprevisibilidade econômica, é fundamental que o seguro deixe de ser visto apenas como custo e passe a ser entendido como instrumento de proteção social e econômica.
“O seguro precisa ser compreendido não apenas como mecanismo de indenização, mas como parceiro estratégico do Estado”, fomentou. Ele destacou ainda que o setor dispõe de capacidade técnica e financeira para apoiar políticas públicas voltadas à redução de vulnerabilidades e à promoção de investimentos sustentáveis.
Roberto Santos, presidente do Conselho Diretor da CNseg – Foto Divulgação: CNseg
Por sua vez, o presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, enfatizou que a agenda institucional vai além da pauta legislativa e reflete uma atuação mais ampla do setor junto ao poder público e ao mercado. Ele destacou avanços recentes, como a regulamentação da reforma tributária e a ampliação do seguro garantia em obras públicas, que já soma mais de R$ 4 bilhões em projetos.
Dyogo chamou atenção, no entanto, para o principal desafio estrutural do setor: a baixa penetração do seguro no país. “A falta de seguro gera prejuízos bilionários para a sociedade e para o Estado”, alertou, citando o caso das enchentes no Rio Grande do Sul, em que apenas cerca de 6% das perdas foram cobertas por seguros. Segundo ele, a agricultura brasileira exemplifica esse problema. Apesar de altamente tecnológica, ainda apresenta baixa cobertura securitária, o que contribui para o endividamento do produtor rural e pressiona as contas públicas por meio de renegociações recorrentes de dívidas. “Precisamos construir uma agenda positiva para expandir o seguro, não pelo benefício do setor, mas pelo impacto que isso traz para toda a sociedade”, disse.
O presidente da Fenacor, Armando Vergílio, reforçou o alinhamento entre corretores e seguradoras na execução dessa agenda e destacou a importância de dar clareza às prioridades do setor para o governo e o Congresso. Segundo ele, a expansão do mercado de seguros está diretamente ligada ao desenvolvimento econômico e à capacidade de financiamento do país.
Vergílio também mencionou iniciativas estratégicas em andamento, como o plano de desenvolvimento do mercado de seguros e o fortalecimento da intermediação, com meta de ampliar a participação do setor na economia brasileira. “Levar o seguro ao patamar que o país precisa é uma agenda de todos nós”, frisou.
Já o superintendente da Superintendência de Seguros Privados (Susep), Alessandro Octaviani, destacou o papel do regulador na construção de um ambiente mais sólido e previsível para o setor. Ele ressaltou que avanços recentes, como a Lei do Contrato de Seguro e a regulamentação de novos modelos de atuação, são resultado direto do diálogo institucional promovido ao longo dos últimos anos.
Octaviani também chamou atenção para o desafio crescente das mudanças climáticas e o impacto sobre o sistema econômico. Segundo ele, há uma lacuna significativa de proteção no país. “No caso do Rio Grande do Sul, estimamos cerca de R$ 100 bilhões em perdas, com apenas R$ 6 bilhões cobertos por seguros. Esse gap é insustentável”, afirmou.
Para o superintendente, é necessário construir um pacto nacional envolvendo setor público e privado para ampliar a cobertura securitária, especialmente diante do aumento da frequência e intensidade de eventos climáticos extremos. “Sem isso, a conta continuará recaindo sobre o Estado e o contribuinte”, disse.
Clima e infraestrutura
A pauta climática aparece como principal eixo da Agenda Institucional 2026. A CNseg aposta na ampliação do uso de dados e modelagem de riscos, com destaque para o Hub de Inteligência Climática, lançada durante a COP30 no ano passado, que reúne ferramentas para mapear eventos extremos e apoiar decisões do setor e do poder público.
Outro foco é a infraestrutura. O documento aponta que o Brasil investe cerca de 2% do PIB no setor e enfrenta mais de 10 mil obras paralisadas. A proposta é ampliar o uso do seguro garantia com cláusula de retomada, permitindo que seguradoras assumam a conclusão de projetos interrompidos.
No agronegócio, o cenário é considerado crítico. A cobertura do seguro rural caiu de 16,3% da área plantada em 2021 para menos de 3% em 2025. A entidade defende maior previsibilidade orçamentária para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) e a criação de um fundo para eventos catastróficos.
A participação de parlamentares no evento reforçou a percepção de que o seguro vem ganhando centralidade no debate público, especialmente em temas ligados à gestão de riscos e à formulação de políticas estruturais. Deputados e senadores destacaram que o setor tem papel transversal na economia e tende a se tornar ainda mais relevante diante de desafios como mudanças climáticas, transição energética e instabilidade econômica. O Senador Eduardo Gomes (PL) afirmou que “onde existe risco, em algum momento o seguro precisa estar presente”, ao defender a ampliação do debate sobre o tema no Congresso, inclusive em novas frentes como tecnologia e inteligência artificial.
Na mesma linha, o Deputado Arthur Maia (União Brasil) ressaltou o caráter essencial do seguro para o funcionamento da economia, citando exemplos recentes em que operações internacionais foram impactadas pela ausência de cobertura securitária. Já o deputado Tiago Dimas chamou atenção para o aumento dos desastres naturais e a baixa cobertura no país, destacando que o Brasil ainda opera de forma reativa. “O país ainda funciona na lógica da reação, quando precisamos avançar para uma cultura de prevenção”, destacou. Também houve convergência entre os parlamentares sobre a necessidade de ampliar a proteção em áreas críticas, como o agronegócio e as cidades, além de fortalecer o arcabouço regulatório para dar previsibilidade ao setor e estimular sua expansão.
Também houve menções ao avanço recente de pautas como a reforma tributária e à necessidade de integrar o seguro a novos temas, como tecnologia, inteligência artificial e proteção de dados.
A apresentação da agenda ocorre em um momento de maior pressão por soluções estruturadas de gestão de risco, tanto no campo climático quanto fiscal. O documento reforçou o movimento do setor segurador de ampliar seu protagonismo na formulação de políticas públicas e na sustentação do crescimento econômico.
Nicholas Godoy, de Brasília
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