EXCLUSIVO – Com 80,9% das famílias brasileiras convivendo com algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o desafio de equilibrar o orçamento tem levado muitos consumidores a reavaliar despesas. Entre elas, os seguros, que ainda são vistos por parte da população como um custo que pode ser eliminado em momentos de aperto financeiro.

Na prática, porém, o movimento observado pelo mercado tem sido mais complexo. Em vez do cancelamento imediato das apólices, cresce a busca por alternativas que permitam manter a proteção com adequações nas coberturas e nos custos, especialmente entre pessoas físicas. Nas empresas, a pressão por redução de despesas também tem levado à revisão de limites de cobertura.

Julio Tenreiro, da Korsa Seguros

“Esse cenário tende a trazer uma busca ainda mais acentuada pela redução nos valores pagos pelos segurados. Apesar de essa percepção estar mudando, ainda temos muitas pessoas e empresas que enxergam o seguro apenas como uma despesa e não como uma ferramenta de transferência de risco. Em momentos de crise, é natural que se busque uma redução de gastos”, afirma Julio Tenreiro, diretor da Korsa Riscos & Seguros em entrevista com a Revista Apólice.

Segundo o executivo, um dos principais erros cometidos por consumidores em períodos de restrição orçamentária é priorizar apenas o preço da apólice, deixando de analisar fatores como coberturas, franquias, exclusões e limites contratados.

“É preciso identificar quais seguros e coberturas são realmente imprescindíveis para a rotina da família ou da empresa. Avaliar apenas o custo pode levar à contratação de uma proteção insuficiente justamente para os riscos mais relevantes”, explica.

Para Tenreiro, a decisão sobre quais seguros manter deve considerar, sobretudo, a capacidade de geração de renda da família. Em muitos casos, o patrimônio protegido representa também a principal fonte de sustento.

“Se a renda da família depende de um pequeno negócio ou de um veículo utilizado para o trabalho, esses bens não podem ficar sem seguro. Caso ocorra um sinistro, além da perda material, a família perde a capacidade de gerar renda para recuperar esse patrimônio”, ressalta.

Outro ponto destacado pelo especialista é que reduzir custos não significa, necessariamente, abrir mão da proteção. A recomendação é comparar ofertas entre seguradoras e investir em boas práticas de gerenciamento de riscos, fator que pode contribuir para condições mais competitivas durante a contratação ou renovação da apólice.

Nesse processo, o papel do corretor ganha ainda mais relevância. Segundo Tenreiro, cabe ao profissional identificar os riscos que podem comprometer a continuidade das atividades do cliente, propor um desenho de cobertura compatível com sua realidade financeira e buscar as melhores condições disponíveis no mercado.

“O corretor deve ajudar o cliente a identificar quais seguros não podem deixar de estar ativos. A partir dessa avaliação, é possível encontrar um equilíbrio entre o nível de proteção e o custo da apólice”, afirma.

O executivo avalia que o próprio mercado segurador também deverá acompanhar as mudanças no comportamento do consumidor. Entre as tendências, ele aponta a ampliação da oferta de produtos segmentados, processos de contratação mais simples e o avanço dos canais digitais como ferramentas para reduzir custos e ampliar o acesso da população ao seguro.

Para as famílias que precisam reorganizar as finanças, a orientação é evitar decisões precipitadas. Antes de cancelar uma apólice, o ideal é avaliar quais riscos podem comprometer o patrimônio ou a geração de renda e revisar as coberturas disponíveis. “Pode-se discutir seguros mais robustos ou mais básicos, mas o que não se deve é ficar sem proteção para as situações mais críticas”, conclui.

Nicholas Godoy

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