EXCLUSIVO – Antes de falar em plataformas digitais, inteligência artificial ou emissão em tempo real, o mercado segurador brasileiro convivia com uma realidade muito diferente. No início dos anos 2000, a distribuição de seguros especializados ainda dependia de processos essencialmente manuais. Cotações eram trocadas por telefone ou fax, documentos percorriam um longo caminho até a emissão da apólice e produtos voltados ao mercado imobiliário permaneciam restritos a poucos operadores. O corretor de seguros, figura central na comercialização dos ramos tradicionais, encontrava dificuldades para acessar modalidades que exigiam conhecimento técnico específico e relacionamento direto com seguradoras ou instituições financeiras.

Foi nesse ambiente que nasceu a GEO. Em vez de disputar espaço com os canais tradicionais de distribuição, a empresa buscou resolver um problema bastante objetivo: criar uma estrutura capaz de conectar seguradoras, corretores e empresas do setor imobiliário por meio da tecnologia, em uma época em que o próprio conceito de plataforma digital praticamente não existia no mercado de seguros brasileiro. Vinte e cinco anos depois, ao comemorar sua trajetória, a empresa também revisita parte da transformação vivida pelo setor, marcada por mudanças regulatórias, evolução tecnológica e pelo fortalecimento da atuação dos corretores em segmentos antes pouco explorados.

Quando iniciou suas atividades, em 2001, a GEO tinha um foco bastante definido. A construção civil vivia um período de expansão e havia necessidade de distribuir seguros ligados ao setor em diferentes regiões do País. A capilaridade dos corretores era indispensável para alcançar esse objetivo, mas faltavam ferramentas capazes de oferecer suporte operacional e técnico para produtos que não faziam parte do cotidiano desses profissionais.

A primeira solução desenvolvida foi voltada ao seguro Garantia de Entrega de Obra, produto que acabou dando origem ao próprio nome da empresa. A partir dele vieram os seguros de Riscos de Engenharia e, pouco tempo depois, os seguros prestamistas relacionados ao financiamento imobiliário. O que parecia ser uma estratégia voltada para um nicho específico revelou-se, na prática, um laboratório de inovação para um mercado que ainda começava a descobrir as possibilidades da digitalização.

Rossana Costa, da GEO

Rossana Costa conhecia bem as dificuldades enfrentadas pelos corretores. Antes de fundar a GEO, atuou durante sete anos na corretagem de seguros e percebeu que muitos profissionais deixavam de explorar oportunidades simplesmente porque não tinham acesso ao conhecimento técnico ou às estruturas necessárias para operar determinados produtos.

A proposta da empresa não era substituir o corretor, mas ampliar sua capacidade de atuação. Enquanto a GEO desenvolvia sistemas, parametrizava regras de aceitação, integrava processos e oferecia suporte operacional, o corretor de seguros permanecia responsável pelo relacionamento comercial com seus clientes. Essa lógica continua sendo um dos pilares da companhia.

“Nossa história foi construída junto aos corretores de seguros. Sempre procuramos entregar aquilo que eles não encontravam no mercado”, resume Rossana. Naquele momento, entretanto, a tecnologia ainda era uma palavra distante da realidade da maior parte das seguradoras. Não existiam multicálculos consolidados, integração entre sistemas ou assinatura eletrônica. Cada nova operação exigia uma sequência de procedimentos que hoje pareceriam incompatíveis com a velocidade dos negócios.

A GEO apostou justamente no contrário: automatizar etapas repetitivas, simplificar fluxos e reduzir o tempo entre a contratação e a emissão das apólices. Embora hoje esse modelo pareça natural, no início dos anos 2000 representava uma ruptura importante para um segmento historicamente marcado por processos burocráticos.

Quebrando barreiras

Ao longo dos primeiros anos, a empresa consolidou sua atuação no mercado imobiliário enquanto acompanhava outro movimento decisivo para o setor: o crescimento do crédito imobiliário brasileiro.

Mesmo atravessando diferentes ciclos econômicos, desde a expansão do mercado de imóveis até os períodos de juros elevados e desaceleração, a construção civil manteve um comportamento relativamente resiliente. Obras continuaram sendo lançadas, novos empreendimentos chegaram ao mercado e o crédito imobiliário passou a ocupar espaço crescente na economia brasileira.

Essa característica acabou influenciando diretamente a estratégia da GEO. Em vez de diversificar indiscriminadamente seu portfólio, a empresa aprofundou sua especialização em produtos ligados ao financiamento imobiliário, entendendo que ali havia espaço para desenvolver soluções de longo prazo.

A principal mudança dessa trajetória ocorreu em 2009, quando a publicação da Circular nº 205 da Superintendência de Seguros Privados (Susep) abriu caminho para o desenvolvimento do mercado privado de seguro habitacional. Até então, grande parte dessas operações permanecia concentrada em estruturas vinculadas ao Sistema Financeiro da Habitação.

A mudança regulatória alterou a dinâmica do mercado. Bancos, incorporadoras, loteadoras e demais agentes financeiros passaram a buscar alternativas independentes para contratação do seguro habitacional. Empresas que já possuíam conhecimento técnico e infraestrutura voltada a esse segmento encontraram um ambiente favorável para expandir suas operações. A GEO estava entre elas.

Segundo Rossana Costa, a empresa já vinha trabalhando com seguros prestamistas ligados ao mercado imobiliário antes mesmo da mudança regulatória. Quando a nova legislação entrou em vigor, bastou adaptar processos e tarifas para migrar rapidamente para o seguro habitacional. Foi uma mudança que redefiniu o posicionamento da empresa.

“O mercado acordou para a possibilidade de operar uma apólice de mercado. Nós já estávamos preparados para isso”, afirma. Desde então, o seguro habitacional tornou-se o principal produto da plataforma. A expansão do crédito imobiliário e a consolidação das exigências regulatórias ampliaram a demanda por soluções ágeis de emissão e acompanhamento das apólices.

Hoje, aproximadamente quatro mil credores utilizam a plataforma da GEO para operações ligadas ao segmento imobiliário, movimentando processos em tempo real entre seguradoras, instituições financeiras, corretores de seguros e segurados.

Essa escala não foi construída apenas pela evolução tecnológica. Ao longo dos anos, a empresa precisou enfrentar um desafio pouco discutido no mercado: encontrar um modelo jurídico compatível com uma atividade que ainda não possuía enquadramento claro.

Durante muito tempo, sua razão social precisou permanecer vinculada à corretagem de seguros simplesmente porque não havia outra forma de remunerar uma empresa cuja atividade consistia em desenvolver tecnologia e prestar assessoria operacional para distribuição de seguros.

Na prática, entretanto, a GEO nunca atuou como corretora de seguros junto ao consumidor final. A mudança recente para GEO Soluções Tecnológicas representa mais do que uma alteração de marca. Ela traduz uma transformação vivida pelo próprio mercado, que passou a reconhecer novos modelos de negócios dedicados exclusivamente ao desenvolvimento de soluções para distribuição.

O reposicionamento da empresa acompanha uma tendência observada em diferentes segmentos do setor segurador, onde empresas especializadas vêm ocupando funções antes inexistentes dentro da cadeia de valor. Apesar dessa evolução, Rossana destaca que a essência da empresa permanece inalterada. “O sucesso da GEO está diretamente ligado ao sucesso dos corretores de seguros. Se eles crescem, nós crescemos também.”

Essa relação de confiança talvez seja o ativo mais importante construído pela companhia ao longo de sua trajetória. Em um mercado onde parte das estruturas de assessoria também comercializa seguros diretamente ao consumidor, a GEO optou por manter uma divisão clara entre tecnologia e distribuição, descartando sua plataforma para disputar clientes dos próprios corretores.

A sua  postura contribuiu para consolidar uma reputação baseada na parceria de longo prazo. “O corretor sabe que seu cliente continuará sendo dele. Isso faz diferença num mercado construído sobre confiança”, garante Rossana.

Além disso, é imprescindível ressaltar que ao longo desses 25 anos a GEO já digitalizou operações para cerca de oito grupos seguradores, entre eles Axa, Ace, Bradesco, Essor, Ezze, MetLife, Royal & Sun Alliance (RSA) e Zurich. É justamente essa parceria com as seguradoras que viabiliza para a plataforma operar de forma 100% gratuita para corretoras e estipulantes.

Hoje, com a capilaridade que a GEO conquistou (quase duas mil corretoras de seguros cadastradas em todo o Brasil e mais de 5 mil empresas atuando como estipulantes de apólices), as seguradoras parceiras acessam muito mais do que uma operação ágil e eficiente para processos complexos.

Rossana destaca que a contratação em tempo real, o faturamento e os sinistros automatizados, bem como o conhecimento dos padrões de compliance mais rigorosos de grupos seguradores internacionais são fundamentais, pois isso garante eficiência operacional e melhora os resultados da operação. Mas, a verdadeira riqueza está nessa base sólida que a GEO construiu: é ela que permite às operações escalarem rapidamente, e se sustentarem no longo prazo.

Jornada do cliente

A evolução da empresa também passou a incorporar uma preocupação crescente com a experiência do segurado. Uma das iniciativas mais recentes foi o desenvolvimento de uma área exclusiva para consulta de certificados e acompanhamento de sinistros. A plataforma permite que segurado, credor, regulador e seguradora acompanhem simultaneamente cada etapa do processo, reduzindo assimetrias de informação que durante décadas marcaram esse tipo de operação.

A ideia surgiu a partir de uma experiência pessoal vivida pela própria executiva, cuja família enfrentou dificuldades para acompanhar um processo de sinistro após um incêndio em um imóvel financiado. A percepção de que o segurado era justamente quem tinha menos acesso às informações motivou o desenvolvimento da ferramenta.

Mais do que criar uma nova funcionalidade, a empresa buscou responder a uma mudança mais ampla no comportamento dos consumidores, que passaram a exigir transparência e acompanhamento em tempo real de todos os serviços financeiros.

Esse movimento acompanha uma transformação que ultrapassa o mercado de seguros. Em praticamente todos os setores da economia, a experiência do usuário deixou de ser um diferencial para tornar-se requisito básico de competitividade.

Ao completar 25 anos, a GEO chega a um cenário bastante diferente daquele encontrado em sua fundação. A digitalização tornou-se regra, novas tecnologias remodelam continuamente os processos de distribuição e o corretor passou a contar com ferramentas capazes de ampliar significativamente sua atuação em segmentos especializados.

O desafio agora já não é convencer o mercado de que tecnologia faz diferença. É acompanhar a velocidade com que ela continua transformando a forma de distribuir seguros. 

O próximo desafio será ganhar velocidade

Há pouco mais de duas décadas, a transformação digital no mercado de seguros estava concentrada na informatização de processos. A prioridade era substituir papel por sistemas, reduzir etapas operacionais e tornar a emissão das apólices mais eficiente. Hoje, essa discussão mudou de patamar. O debate já não está em digitalizar procedimentos, mas em redefinir a forma como seguros são distribuídos, contratados e administrados em um ambiente onde dados, inteligência artificial e integração entre plataformas passam a determinar a competitividade.

Para Rossana Costa, CEO e  fundadora da GEO, a inteligência artificial representa um divisor de águas comparável às grandes mudanças tecnológicas vividas pelo setor nas últimas décadas. Na sua avaliação, 2026 marca o início de um novo ciclo, em que a velocidade de processamento deixará de ser um diferencial para tornar-se condição básica de permanência no mercado. “Não há caminho de volta. A inteligência artificial veio para mudar definitivamente a forma como os serviços serão prestados”, ressalta.

Essa transformação, porém, não está restrita ao desenvolvimento de novas ferramentas. Ela altera a expectativa dos próprios clientes. As operações que até pouco tempo eram consideradas rápidas passam a ser vistas como demoradas. Em um ambiente de decisões instantâneas, a emissão de uma apólice não pode depender de processos que levam dias para serem concluídos, assim como a regulação de um sinistro tende a ser cada vez mais automatizada e transparente.

Essa pressão por agilidade deverá atingir toda a cadeia de distribuição. Para Rossana, “seguradoras, corretores de seguros, assessorias, empresas de tecnologia e reguladores precisarão trabalhar de forma cada vez mais integrada, reduzindo etapas intermediárias e compartilhando informações em tempo real”.

Na avaliação da executiva, esse cenário abre espaço para empresas especializadas em tecnologia, capazes de desenvolver soluções específicas para segmentos onde ainda existem gargalos operacionais. Enquanto grandes seguradoras precisam administrar dezenas de linhas de negócio e estruturas complexas, empresas mais enxutas conseguem responder com maior rapidez às demandas do mercado.

É nesse contexto que a GEO pretende concentrar seus próximos movimentos. A estratégia não passa por disputar mercados já consolidados, como o seguro de automóveis, mas por ampliar sua atuação em nichos onde tecnologia e especialização ainda representam diferenciais competitivos.

O mercado imobiliário continuará sendo uma das prioridades, mas a empresa já estuda novos segmentos capazes de reproduzir o modelo construído ao longo dos últimos 25 anos. Entre eles está a área educacional e outros ambientes em que produtos especializados exigem processos digitais, integração de dados e suporte técnico aos corretores de seguros.

Para Rossana, o corretor continuará desempenhando papel estratégico nesse novo ambiente. O avanço da inteligência artificial tende a automatizar tarefas operacionais, mas dificilmente substituirá o relacionamento, a capacidade consultiva e o entendimento das necessidades do cliente, atributos que continuam sendo determinantes, especialmente em produtos de maior complexidade.

Se os últimos 25 anos foram marcados pela digitalização da distribuição, o próximo ciclo deverá ser definido pela combinação entre inteligência artificial, análise de dados e velocidade operacional. Nesse cenário, a tecnologia deixa de ser apenas um instrumento de eficiência para se tornar parte essencial da proposta de valor das empresas do setor.

*Matéria originalmente publicada na Edição #321 da Revista Apólice.

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