Participei nos últimos meses dos principais encontros internacionais do setor em Miami, Londres e o RIMS, na Filadélfia, e eles evidenciaram uma percepção comum entre seguradoras, resseguradoras, corretores e gestores de riscos: o mercado atravessa um ciclo de maior competitividade, caracterizado pelo aumento da oferta de capacidade e pela pressão sobre taxas e condições comerciais.
Após um período marcado por disciplina de subscrição, restrições de capacidade e elevados custos de transferência de risco, observa-se atualmente um ambiente mais favorável aos compradores de seguros. Em diversas linhas de negócios, especialmente no segmento facultativo, seguradoras e resseguradoras vêm disputando ativamente oportunidades de colocação, ampliando a concorrência e contribuindo para reduções relevantes nos níveis de taxa.
Na América Latina, não é incomum observar reduções entre 15% e 20% em determinados programas de seguros. Em alguns segmentos do mercado brasileiro, as reduções têm sido ainda mais expressivas. Embora esse movimento represente uma oportunidade importante para os segurados, existe um risco de interpretação: associar a diminuição do custo do seguro a uma redução da exposição ao risco.
A realidade é que os fundamentos do risco permanecem inalterados. Empresas continuam expostas a interrupções operacionais, eventos climáticos extremos, falhas na cadeia de suprimentos, riscos cibernéticos, responsabilidades legais e demais eventos capazes de gerar impactos financeiros e reputacionais relevantes.
Ao mesmo tempo, a frequência e a severidade de eventos catastróficos continuam pressionando o setor global. Dados do Swiss Re Institute indicam que as perdas seguradas decorrentes de catástrofes naturais mantêm uma trajetória estrutural de crescimento de 5% a 7%, impulsionada pela maior concentração de ativos em áreas expostas, pelo aumento dos valores segurados e pelos efeitos associados às mudanças climáticas.
Nesse contexto, a principal discussão para as empresas não deveria ser apenas quanto economizar na renovação de seus programas de seguros, mas como utilizar as condições favoráveis do mercado para otimizar sua estratégia de transferência de riscos e estarem protegidos em todas suas exposições.
A redução dos prêmios cria uma oportunidade para reavaliar estruturas de retenção, revisar limites de indenização, ampliar coberturas e incorporar proteções que, em ciclos mais restritivos, poderiam ter sido consideradas economicamente inviáveis. Trata-se de um momento propício para buscar maior eficiência na alocação de capital, reduzir potenciais lacunas de cobertura e contratar novas apólices.
Essa abordagem torna-se ainda mais relevante quando se considera a natureza cíclica dos mercados de seguros e resseguros. Historicamente, períodos de abundância de capacidade e redução de preços são sucedidos por fases de maior restrição, geralmente impulsionadas por eventos de grande magnitude, deterioração dos resultados técnicos ou aumento da volatilidade das perdas.
Empresas que utilizam exclusivamente esse momento para reduzir os prêmios, tratando apenas como linha de despesas podem capturar ganhos de curto prazo. Por outro lado, organizações que aproveitam o ciclo para fortalecer seus programas de seguros e investir na melhoria da qualidade dos riscos tendem a construir uma posição diferenciada dos pares no mesmo setor / atividade e sustentável para enfrentar futuras mudanças de mercado.
Outro aspecto relevante observado nos encontros internacionais foi a crescente participação de clientes latino-americanos em discussões relacionadas à gestão de riscos corporativos. Cada vez mais, as conversas deixam de se concentrar exclusivamente em prêmio e capacidade para incluir temas como prevenção de perdas, avaliação de risco, continuidade de negócios, engenharia de riscos e governança.
Esse movimento reflete uma evolução importante na maturidade do mercado. A transferência de risco continua sendo um componente fundamental da estratégia de proteção patrimonial das empresas, mas já não é suficiente de forma isolada. A qualidade do risco passou a exercer influência direta não apenas sobre a disponibilidade de capacidade, mas também sobre as condições de subscrição e o custo total do risco ao longo do tempo.
Em suma, entendo que a combinação rara de capacidade abundante, maior apetite dos mercados e condições comerciais mais favoráveis deve ser encarada como um momento estratégico para as empresas e não apenas economia na renovação de seus programas, mas sim como transformar esse ciclo positivo em uma oportunidade para fortalecer sua estrutura de gestão de riscos e aumentar sua resiliência no longo prazo.
*Por Isabella Ximenez, Diretora da Acrisure Re Brasil.
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