EXCLUSIVO – A missão Artemis II marcou, em abril de 2026, o retorno da exploração humana ao espaço profundo após mais de cinco décadas, sendo a última a missão Apollo 11. Realizada pela NASA, a operação levou quatro astronautas (Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen) a uma trajetória ao redor da Lua, sem pouso, com duração aproximada de dez dias, etapa considerada crítica para validar sistemas que serão utilizados nas próximas missões do Artemis program.
Lançada no início do mês e concluída com pouso no oceano Pacífico no dia 10 de abril, a missão teve como foco testar, em condições reais, sistemas de suporte à vida, navegação e desempenho da cápsula Orion spacecraft. A reentrada na atmosfera, considerada uma das fases mais críticas, ocorreu em altíssima velocidade e sob temperaturas superiores a 2.700 °C, exigindo desempenho extremo do escudo térmico, que voltou ao centro das atenções após questionamentos técnicos desde a Artemis I.
Ao longo da missão, a tripulação atingiu distâncias superiores às registradas no programa Apollo, além de realizar uma série de testes operacionais e biomédicos fundamentais para a continuidade da exploração lunar. Apesar do sucesso da operação, o voo evidenciou um aspecto estrutural: mesmo com avanços tecnológicos, o risco permanece elevado, concentrado em momentos específicos e com potencial de impacto catastrófico.
É justamente nesse ponto que surge uma discussão ainda pouco explorada, trazendo para a visão do setor segurador: como estruturar um seguro de vida para um astronauta submetido a esse nível de exposição?
Do ponto de vista técnico, o astronauta não se enquadra nas categorias convencionais do seguro de vida. Na análise do especialista em seguro de vida e Head de Treinamento e Experiência de Corretores na Azos, André Rezende, trata-se de um risco classificado como specialty, completamente fora da lógica tradicional de mutualismo. “O astronauta é tratado como um risco fora do comum, que não se encaixa nas categorias tradicionais, justamente por envolver eventos raros e de alta severidade”, explica.
Na prática, isso significa que não há base estatística suficiente para diluição de risco entre segurados, elemento central na precificação de produtos massificados. A ausência de escala também impacta diretamente a oferta. Atualmente, não existem produtos de prateleira voltados a astronautas. As estruturas são desenvolvidas sob demanda e dependem da participação de grandes resseguradores.
André destaca que esse tipo de cobertura é, em geral, solicitado por governos e agências espaciais, o que limita a padronização e mantém o produto restrito a operações específicas. A análise de risco nesse contexto exige um nível de detalhamento incomum. Diferentemente de apólices tradicionais, em que variáveis são relativamente estáveis, a subscrição de um astronauta incorpora múltiplas dimensões técnicas e individuais.
Entre os principais fatores considerados estão o tipo de missão, duração, distância da Terra, tecnologia envolvida, histórico operacional e o perfil do astronauta, incluindo condições médicas, treinamento e experiência. Como resume o executivo, “toda a informação possível de ser compartilhada é levada em consideração”, em uma tentativa de reduzir a incerteza inerente ao risco.
Limitações atuariais
A precificação é um dos principais desafios. A baixa recorrência de eventos impede a aplicação de modelos atuariais tradicionais, exigindo abordagens baseadas em cenários e engenharia de risco. “Modelos tradicionais não são suficientes”, afirma. Segundo André, a construção do prêmio depende de simulações complexas e de dados limitados, o que torna o processo altamente incerto e técnico.
Na prática, esse tipo de estrutura se aproxima mais de seguros voltados a grandes riscos industriais ou projetos experimentais do que de produtos convencionais de vida. A missão Artemis II ilustra de forma clara como o risco não é distribuído de maneira uniforme. Há concentração em etapas específicas, especialmente no lançamento, na reentrada e em eventuais falhas operacionais durante o trajeto. “Essas são fases com maior concentração de risco catastrófico”, observa o executivo.
A combinação de alta complexidade tecnológica e baixa margem de erro torna esses momentos particularmente sensíveis sob a ótica seguradora. No mercado brasileiro, apólices tradicionais de seguro de vida costumam excluir atividades de risco extremo, como missões espaciais. Isso reforça a necessidade de estruturas específicas, desenhadas caso a caso. Rezende ressalta que esse enquadramento como risco specialty exige análise individualizada e contratos adaptados à natureza da operação.
Extensão da proteção
Quando estruturado, um seguro para astronautas pode ir além da cobertura por morte. Há espaço para incluir invalidez permanente e doenças graves potencialmente associadas ao ambiente espacial, como efeitos da microgravidade e exposição à radiação. Também ganha relevância a proteção financeira aos dependentes, considerando o impacto de uma missão desse tipo.
A entrada crescente de empresas privadas na exploração espacial tende a alterar esse cenário. Com mais atores envolvidos, aumenta a demanda por soluções de mercado e por mecanismos de transferência de risco mais sofisticados. “Com empresas privadas entrando nesse setor, cresce a necessidade de soluções de mercado”, frisa.
No curto prazo, a oferta ainda se mostra limitada, mas o aumento da frequência de missões e o avanço do turismo espacial podem criar condições para o desenvolvimento desse nicho. Esse movimento ocorre em paralelo à ampliação dos programas de exploração de longo prazo, que já incluem discussões sobre presença e colonização em Marte.
Os efeitos, no entanto, não se restringem ao setor espacial. Tecnologias, modelos de precificação e metodologias de gestão de risco desenvolvidos para esse tipo de operação têm potencial de influenciar o mercado de seguros de forma mais ampla. Ainda que de maneira gradual, essas inovações podem ser incorporadas a produtos tradicionais, ampliando a capacidade do setor de lidar com riscos complexos.
A Artemis II não apenas inaugura uma nova fase da exploração e um passo extremamente importante na história da humanidade, mas também demonstra um limite estrutural para o setor: como precificar riscos que fogem da lógica estatística tradicional. É nesse ambiente de baixa previsibilidade e alta severidade que o seguro começa a testar novas abordagens, com potencial de redefinir a forma como o risco é compreendido e transferido no futuro. “O desenvolvimento dessas missões deve impulsionar novas formas de precificação e gestão de risco, que no futuro podem influenciar inclusive produtos que podem se tornar mais tradicionais”, conclui Rezende.
Nicholas Godoy
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