EXCLUSIVO – Se o El Niño existe desde sempre e recebeu este nome no Peru há mais de 100 anos, quando pescadores verificarem os efeitos do aquecimento da água na sua produção, os efeitos da sua atuação são claros e esperados. Seu impacto no mercado de seguros é bastante significativo e prova disso é a grande quantidade de debates sobre o tema.
A Mapfre reuniu corretores de seguros em São Paulo justamente para apresentar as previsões da Meteo IA, cujo sócio fundador é PHD em Ciências Climáticas. “As mudanças climáticas já não podem mais ser tratadas como uma preocupação futura. O aumento consistente das temperaturas globais, a intensificação dos eventos extremos e a maior imprevisibilidade dos regimes de chuva estão alterando a forma como empresas, governos e o mercado segurador precisam avaliar riscos. A conclusão é de Gabriel Pérez, que apresentou uma análise sobre os impactos do aquecimento global e dos fenômenos climáticos na gestão de riscos e no setor de seguros.
Segundo o especialista, embora fenômenos como El Niño e La Niña recebam grande atenção sempre que provocam secas ou enchentes, eles representam apenas uma parte do cenário climático. O principal fator de transformação é o aquecimento global provocado pelo aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera, resultado das atividades humanas.
“O aquecimento global é um fenômeno crônico, uma tendência de longo prazo. Mesmo que as emissões fossem interrompidas imediatamente, os efeitos continuariam por décadas, porque o tempo médio de permanência do CO? na atmosfera é de aproximadamente cem anos”, afirmou.
O pesquisador destacou que 2024 registrou a maior temperatura média global da história, com recordes em grande parte do planeta. Para ele, esse cenário altera diretamente o comportamento dos eventos climáticos extremos, aumentando tanto sua frequência quanto sua intensidade.
No Brasil, as projeções indicam uma tendência de intensificação dos contrastes climáticos: regiões tradicionalmente chuvosas tendem a receber ainda mais precipitação, enquanto áreas sujeitas à escassez hídrica podem enfrentar períodos de seca mais severos. O resultado é o aumento do estresse sobre infraestrutura, agricultura, cidades e atividades econômicas, incluindo o mercado segurador.
Do ponto de vista científico, explicou Perez, o El Niño representa a fase quente do fenômeno conhecido como ENOS (El Niño-Oscilação Sul), resultado da interação entre oceano e atmosfera. Alterações na circulação dos ventos e na distribuição das águas superficiais do Pacífico modificam a formação de tempestades e influenciam os regimes de chuva em diferentes regiões do planeta.
No Brasil, porém, seus efeitos variam conforme o episódio e a região. Enquanto o Rio Grande do Sul costuma registrar aumento das chuvas durante anos de El Niño, estados como São Paulo estão em uma área de transição climática, onde os impactos podem ser bastante diferentes de um evento para outro.
“É muito difícil afirmar antecipadamente se São Paulo terá um período mais seco ou mais chuvoso apenas porque existe um El Niño. É preciso acompanhar continuamente as previsões para entender como os impactos irão evoluir”, observou.
Na avaliação do especialista, o maior desafio para o mercado de seguros está justamente na combinação entre o aquecimento global e fenômenos naturais como El Niño e La Niña, que atuam como oscilações capazes de potencializar ou amenizar temporariamente esses efeitos.
Esse novo contexto amplia a ocorrência de eventos extremos, deslocando para uma nova realidade climática aquilo que antes era considerado excepcional. Segundo Pérez, episódios que no passado eram classificados como raros passam gradualmente a ocorrer com maior frequência, exigindo novas estratégias de adaptação.
Para ilustrar esse processo, ele apresentou estudos que demonstram como a distribuição estatística dos eventos climáticos vem sendo alterada. Na prática, temperaturas recordes e precipitações intensas deixam de ocupar a extremidade da curva estatística para se aproximarem da nova média climática, elevando significativamente a probabilidade de ocorrência de desastres naturais.
Essa mudança tem impacto direto sobre o conceito de resiliência. À medida que eventos extremos se tornam mais frequentes e mais severos, cresce o número de pessoas, empresas e estruturas que deixam de suportar esses episódios.
“O grande desafio é construir planos de contingência para situações que muitas vezes nunca aconteceram antes. Vivemos um cenário de incerteza em que eventos inéditos podem ocorrer, e o mercado de seguros tem um papel fundamental como gestor de riscos para ajudar a sociedade a se preparar para essa nova realidade”, concluiu.
A ação da seguradora
As projeções climáticas também começam a orientar as estratégias das seguradoras para o segundo semestre e o verão. Segundo Leonardo Martins, diretor Territorial São Paulo da Mapfre, os modelos meteorológicos indicam uma distribuição irregular das chuvas no País. Enquanto o Rio Grande do Sul deve continuar registrando precipitações acima da média, especialmente entre setembro e novembro, parte do Centro-Oeste, do Sudeste e da Amazônia tende a enfrentar volumes inferiores ao padrão histórico. Para o executivo, esse cenário exige atenção simultânea de diferentes linhas de negócios. “No seguro patrimonial, cresce a preocupação com eventos associados às tempestades, como ventos fortes e chuvas intensas, principalmente em regiões de elevada concentração de riscos. Já no seguro agrícola, a redução das chuvas em importantes áreas produtoras pode comprometer o desenvolvimento das lavouras, especialmente durante o ciclo da soja, tornando ainda mais relevante o monitoramento climático por parte das seguradoras”.
Martins destaca ainda que as anomalias de temperatura previstas para os próximos meses também merecem acompanhamento. Além dos efeitos sobre a saúde da população e sobre a produtividade agrícola, períodos prolongados de calor elevam a demanda por energia e aumentam a exposição de determinados riscos seguráveis. No Sul, a expectativa de temperaturas relativamente mais baixas está associada à maior frequência de sistemas meteorológicos e ao aumento das chuvas previsto para a região.
Leonardo explica que a iniciativa de realizar o evento sobre Riscos Climáticos nasceu de uma demanda dos próprios corretores, que passaram a buscar mais informações sobre os impactos dos eventos climáticos no mercado segurador. Segundo ele, episódios recentes, como as enchentes no Rio Grande do Sul e os períodos de seca que afetaram o agronegócio, reforçaram a necessidade de ampliar o conhecimento técnico da distribuição sobre fenômenos como o El Niño e seus reflexos em diferentes carteiras de seguros.
Para o executivo, o desafio vai além da indenização. “O nosso papel é entender cada vez mais a necessidade do cliente, antecipar os riscos que sabemos que irão ocorrer, ofertar uma cobertura adequada e gerar proteção para a sociedade”, pondera. Na avaliação de Martins, o corretor exerce função estratégica nesse processo ao promover uma conversa preventiva com o segurado, revisitando coberturas antes da ocorrência dos eventos climáticos e adequando as apólices às novas exposições de risco.
Martins destaca ainda que a proposta da Mapfre é levar esse debate para outras regiões do País. Depois da primeira edição, realizada em São Paulo, a companhia pretende promover encontros adaptados às características climáticas de cada localidade, abordando temas específicos relacionados a segmentos como agronegócio, automóvel e residencial. “Cada região convive com riscos distintos. Por isso, é importante levar conhecimento direcionado para que o corretor esteja cada vez mais preparado para orientar seus clientes”, finaliza.
Kelly Lubiato
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