EXCLUSIVO – A inteligência artificial e seus reflexos sobre a gestão de riscos estiveram no centro dos debates do Partners Summit, promovido pela Latin Re na manhã desta quarta-feira (18), em São Paulo, pela Latin Wholesale. O encontro reuniu representantes do mercado jurídico e segurador, que discutiram os desafios relacionados à governança, proteção de dados, responsabilidade profissional diante da rápida adoção dessas ferramentas.
Ao longo do encontro, os painelistas convergiram em um ponto: o risco não está necessariamente na utilização da inteligência artificial, mas na ausência de regras claras para seu uso. Políticas internas, treinamentos, revisão humana e monitoramento constante foram apontados como pilares essenciais para reduzir a exposição das organizações.
Durante o painel, o sócio e especialista em Direito Digital da PK Advogados, Plinio Higasi, ressaltou que o uso da IA já faz parte do cotidiano das empresas e que o principal desafio passa a ser estruturar mecanismos de controle e diretrizes internas capazes de acompanhar essa evolução tecnológica.
Para Plinio, permitir que colaboradores utilizem livremente ferramentas abertas, sem diretrizes definidas, pode ampliar riscos relacionados ao sigilo profissional, à proteção de dados e à própria qualidade das entregas realizadas aos clientes. Em sua visão, toda organização deveria estabelecer quais plataformas podem ser utilizadas, definir responsabilidades e manter revisão obrigatória dos conteúdos produzidos com auxílio da tecnologia.
“A inteligência artificial já é uma realidade. O problema não é utilizá-la, mas fazê-lo sem governança, sem políticas internas e sem revisão humana”, disse Plinio.
O advogado também chamou atenção para a necessidade de preparação para incidentes cibernéticos. Ele defendeu que escritórios mantenham planos de continuidade de negócios, rotinas de backup, preservação de provas digitais e protocolos claros para resposta a ataques, especialmente em casos de ransomware capazes de interromper operações e comprometer prazos processuais.
Hellen Fernandes, gerente de Financial Lines e Cyber da Zurich Seguros, também alertou para os riscos relacionados ao uso da inteligência artificial. Para ela, muitos dos incidentes envolvendo a tecnologia decorrem menos da ferramenta em si e mais da forma como ela é utilizada pelas pessoas.
A executiva ressaltou que “a palavra hoje é governança” e defendeu que as empresas invistam continuamente em conscientização e treinamento dos colaboradores para reduzir riscos relacionados à proteção de dados e ao uso da inteligência artificial.
Ela observou que o compartilhamento inadequado de bases de dados, documentos confidenciais ou informações sensíveis em plataformas abertas pode gerar consequências relevantes sob a ótica regulatória e da responsabilidade civil. Nesse contexto, treinamentos frequentes e ações permanentes de conscientização tornam-se tão importantes quanto as soluções tecnológicas adotadas pelas empresas.
A discussão também alcançou o mercado segurador. Fernando Gonçalves, Chief Underwriting Officer da Catulus Underwriting, avaliou que o simples fato de uma empresa utilizar inteligência artificial tende a deixar de ser um diferencial na análise de riscos, uma vez que a ferramenta caminha para se tornar parte natural das operações.
Para o executivo, o foco da subscrição deve migrar para a avaliação da maturidade da governança adotada por cada organização, considerando controles internos, políticas de uso e mecanismos de supervisão implementados.
Já Raíssa Campelo, sócia de Seguros e Resseguros do Pinheiro Neto, observou que a ausência de cláusulas específicas relacionadas à inteligência artificial nas apólices pode tornar mais complexas eventuais discussões sobre cobertura em casos de sinistros. Na avaliação da advogada, diante da consolidação dessa tecnologia no ambiente corporativo, o mercado tende a avançar para definições mais claras sobre riscos cobertos, exclusões e responsabilidades.
Sob outra perspectiva, Marcelo Mansur, sócio da área de (Res)Seguros e Previdência do Mattos Filho, chamou atenção para o fator humano. Mansur ponderou que nenhuma ferramenta substitui a responsabilidade profissional do advogado, razão pela qual treinamento, supervisão e cultura organizacional permanecem elementos indispensáveis mesmo em um cenário de crescente automação.
O advogado acrescentou que a tecnologia não elimina a responsabilidade humana. “O mais importante é treinar, responsabilizar e criar uma cultura em que as pessoas saibam usar essas ferramentas de forma adequada”, afirmou.
Nos momentos finais do debate, outro tema ganhou espaço entre as discussões: o impacto da inteligência artificial sobre a formação das futuras gerações de profissionais do Direito. A avaliação predominante foi que atividades tradicionalmente desempenhadas por estagiários e advogados em início de carreira tendem a ser cada vez mais automatizadas, exigindo novas competências relacionadas à análise crítica, interpretação jurídica e supervisão das ferramentas tecnológicas.
Nicholas Godoy, de São Paulo
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