EXCLUSIVO – Players do mercado digital de seguros defenderam nesta quinta-feira (28), durante o Insurtech Brasil 2026, que a revolução tecnológica deve acelerar uma ampla transformação operacional no setor. A avaliação entre os participantes foi de que o desafio das seguradoras deixou de estar restrito à adoção de tecnologia e passou a envolver velocidade de execução, integração de dados e capacidade de adaptação das organizações em um ambiente de mudanças cada vez mais rápidas.
Durante a palestra “Overview Regulatório 2026: Perspectivas para o Mercado de Seguros”, Alessandro Octaviani, superintendente da Susep, afirmou que o fortalecimento tecnológico do mercado segurador passou a fazer parte da própria estratégia de desenvolvimento econômico do país, especialmente diante do aumento das catástrofes climáticas e da baixa penetração do seguro no Brasil. “Podemos dizer que o mercado responde rápido, é eficiente e tecnicamente competente, mas socialmente ainda insuficiente diante da magnitude das recentes tragédias”, disse.
Segundo o regulador, enfrentar esse cenário exigirá uma combinação entre capital privado, participação do Estado e maior incorporação tecnológica dentro do setor. Na avaliação dele, o mercado precisará ampliar sua escala de atuação para incluir municípios, infraestrutura pública e projetos ligados à reconstrução econômica pós-catástrofes. “Não existe solução exclusivamente privada para a crise climática”, destacou.
“Neste mercado o crime organizado não pode entrar”, decalrou Alessandro Octaviani
Octaviani também reforçou que a inovação tecnológica passou a ocupar posição central dentro da agenda regulatória da Susep. Entre os pontos citados estão a ampliação do Sandbox Regulatório, o fortalecimento do Sistema de Registro de Operações (SRO), o avanço do Open Insurance e a utilização de Big Data na supervisão do mercado. “Migrar o mercado de seguros para a era do Big Data exige também migrar a fiscalização para a era do Big Data”, afirmou. O superintendente ainda defendeu o fortalecimento da supervisão sobre o setor diante do avanço da digitalização das operações e endureceu o discurso sobre integridade regulatória. Segundo ele, a sofisticação tecnológica da fiscalização passou a ser essencial para garantir segurança jurídica, proteção da poupança popular e maior confiabilidade ao ambiente segurador.
A necessidade de revisar modelos operacionais tradicionais também esteve no centro da palestra “Beyond the Hype: Separating Opportunity from Noise in Insurance AI & Tech Trends”, apresentada por Juan Mazzini, Global Head Global da Celent. Segundo o executivo, boa parte das seguradoras ainda permanece presa ao chamado “innovation theater”, baseado em projetos-piloto e iniciativas que geram repercussão, mas não conseguem produzir transformação concreta dentro das operações.
“Precisamos parar de perguntar apenas como automatizamos processos e começar a perguntar quais decisões realmente precisam de um humano”, refletiu Mazzini. Para ele, o setor começa a migrar de uma fase focada em chatbots e automações simples para um ambiente baseado em agentes de inteligência artificial mais autônomos, capazes de interpretar linguagem natural, executar tarefas e interagir entre diferentes sistemas sem intervenção constante.
Juan Mazzini
O executivo também alertou para o impacto da inteligência artificial sobre a força de trabalho do setor. Segundo ele, as seguradoras caminham para modelos de decisão por exceção, nos quais sistemas automatizados passam a executar parte relevante dos fluxos operacionais enquanto profissionais assumem funções ligadas à supervisão, julgamento crítico e validação de cenários complexos de capacitação. “O especialista agora também precisa treinar os robôs”, resumiu.
No painel “Tendências e Inovações na Voz das Lideranças do Mercado”, executivos reconheceram que o mercado segurador ainda convive com gargalos operacionais básicos mesmo diante do avanço acelerado da inteligência artificial. Alfredo Lalia Neto, CEO da Sompo, afirmou que o setor já superou a fase de apenas discutir IA conceitualmente e passou a ser pressionado por aplicações práticas capazes de gerar eficiência operacional e melhorar a experiência do cliente. “Hoje já passou o tempo de apenas mencionar IA. O cliente quer ver aplicação prática”, afirmou.
Já Marcos Couto, CEO da Alper Seguros, adotou um tom mais crítico em relação ao estágio de maturidade tecnológica do setor, em segundo ele, boa parte do mercado ainda utiliza inteligência artificial principalmente para ganhos internos de produtividade, sem mudanças estruturais em produtos ou jornadas do cliente. “A aplicação dessas soluções ainda é baixíssima no mercado”, debateu.
Como exemplo das dificuldades operacionais do setor, Couto citou seguradoras que ainda resistem à adoção de assinaturas digitais em propostas comerciais, mantendo fluxos manuais mesmo diante da existência de plataformas já consolidadas e juridicamente reconhecidas. Para ele, o excesso de preocupação com riscos jurídicos acaba retardando a evolução tecnológica das operações. “Não existe transformação digital sem assumir algum nível de risco”, afirmou Marcos Couto.
O painel também trouxe uma visão mais otimista sobre o posicionamento brasileiro no cenário global. Juan Mazzini alertou que o Brasil costuma subestimar o próprio estágio tecnológico, apesar de já ocupar posição de destaque internacional em áreas ligadas a pagamentos digitais, Open Finance e Open Insurance.
A avaliação foi reforçada por Alfredo Lalia ao relatar experiências recentes da Sompo em projetos internacionais de inteligência artificial. O executivo compartilhou que a companhia desenvolveu no Brasil uma plataforma automatizada de subscrição para seguros de transporte capaz de reduzir em cerca de 60% o tempo operacional da área. O projeto chamou atenção da matriz japonesa e levou à criação do Sompo Digital Labs no país, transformando o Brasil em um dos polos globais de inovação tecnológica do grupo. “A gente tem uma síndrome de vira-lata de achar que está atrasado, mas há muita coisa relevante sendo construída aqui”, frisou Alfredo.
Ao longo dos debates, executivos também defenderam que o avanço da inteligência artificial tende a ampliar a pressão sobre seguradoras para modernização de sistemas, integração de dados e revisão dos modelos tradicionais de operação. Na mensagem final, o diferencial competitivo das companhias deixará de estar apenas no acesso à tecnologia e passará a depender cada vez mais da capacidade de integração e criação de novos paradigmas para o mercado.
Nicholas Godoy, de São Paulo
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