EXCLUSIVO – Com cerca de R$ 1,3 trilhão em ativos sob gestão, a previdência complementar fechada consolida-se como um dos principais instrumentos de formação de poupança de longo prazo no país. Ao mesmo tempo, cresce o interesse das empresas em utilizar esse modelo não apenas como um benefício financeiro, mas como ferramenta de retenção de talentos, educação financeira e planejamento para a longevidade.
Em entrevista, Maria Izabel Pedrosa, superintendente da Bradesco Vida e Previdência, explica as diferenças entre a previdência fechada e os planos individuais, detalha o papel das empresas patrocinadoras e comenta como a estratégia de consolidação da companhia busca ampliar o acesso das organizações a esse modelo de benefício.
Para começar, como explicar de forma simples o que é previdência fechada?
MI: A previdência fechada é uma modalidade de previdência complementar oferecida a um grupo específico de pessoas, como colaboradores de uma empresa, associados de uma entidade ou membros de uma categoria profissional. No ambiente corporativo, ela funciona como um benefício oferecido pela empresa aos seus funcionários, com o objetivo de apoiar a construção de uma reserva financeira de longo prazo, geralmente voltada à aposentadoria.
Qual é a diferença entre previdência fechada e previdência aberta, como PGBL e VGBL?
MI: A principal diferença está no público e na forma de contratação. A previdência aberta, como PGBL e VGBL, é oferecida por bancos, seguradoras e instituições financeiras para qualquer pessoa interessada em ter um plano individual.
Já a previdência fechada é oferecida por uma empresa, associação ou entidade a um grupo delimitado de participantes. No caso das empresas, ela integra a política de benefícios corporativos e pode contar com contribuições tanto do colaborador quanto da própria patrocinadora, conforme as regras do plano.
Por que a previdência fechada pode ser considerada um benefício corporativo estratégico?
MI: Porque ela vai além de um benefício financeiro tradicional. A previdência fechada demonstra o compromisso com o futuro financeiro dos colaboradores e pode fortalecer sua estratégia de atração, retenção e engajamento de talentos.
Para o colaborador, o benefício representa uma oportunidade de construir uma reserva de longo prazo com disciplina e, em muitos casos, com o apoio financeiro da empresa. Para a companhia, é uma forma de ampliar a percepção de valor do pacote de benefícios e reforçar uma cultura de planejamento e cuidado com as pessoas.
Qual é o papel da empresa patrocinadora dentro de um plano de previdência fechada?
MI: A empresa patrocinadora é aquela que oferece o plano aos seus colaboradores. Ela participa da estruturação das regras do benefício, define critérios de adesão e contribuição, apoia a comunicação com os funcionários e, dependendo do desenho do plano, também realiza contribuições em favor dos participantes.
Esse papel é importante porque a previdência fechada não deve ser vista apenas como um produto financeiro, mas como parte da estratégia de gestão de pessoas da companhia. Quanto mais clara for a comunicação da empresa, maior tende a ser a compreensão e o engajamento dos colaboradores.
Quais são os principais benefícios para o colaborador?
MI: O principal benefício é a possibilidade de construir uma renda complementar para o futuro, com horizonte de longo prazo e disciplina de contribuição. Quando há contrapartida da empresa, esse valor se torna ainda mais relevante, porque o colaborador passa a contar com um apoio adicional na construção do seu futuro financeiro.
Além disso, a previdência fechada pode ajudar o participante a desenvolver maior consciência sobre aposentadoria, longevidade, organização financeira e necessidade de poupar de forma recorrente.
Ainda existe o desafio de fazer o colaborador enxergar a previdência como construção de patrimônio, e não apenas como desconto mensal?
MI: Sim. Esse é um dos grandes desafios de comunicação e educação financeira. Muitas vezes, o colaborador observa apenas o valor descontado mensalmente, sem perceber o efeito acumulado das contribuições ao longo dos anos e o possível ganho representado pela contribuição da empresa.
Por isso, a comunicação precisa ser simples, constante e didática. É importante mostrar que a previdência fechada é uma construção gradual, pensada para o futuro, e que pode fazer diferença na composição da renda complementar no momento da aposentadoria.
O mercado de previdência complementar fechada reúne cerca de R$ 1,3 trilhão em ativos no Brasil. O que esse número representa?
MI: Esse volume mostra a relevância da previdência fechada para a formação de poupança de longo prazo no país. Trata-se de um segmento importante não apenas para os participantes e empresas patrocinadoras, mas também para a economia, já que esses recursos são investidos com horizonte de longo prazo.
O dado também reforça que a previdência fechada tem papel estratégico nas discussões sobre planejamento financeiro, longevidade e sustentabilidade dos benefícios corporativos. Em um país que vive mais e precisa se preparar melhor para o futuro, esse mercado tende a ganhar ainda mais importância.
A Bradesco Vida e Previdência busca se posicionar como consolidadora da previdência fechada. O que isso significa na prática?
MI: Significa atuar como uma plataforma especializada para empresas que desejam oferecer, aprimorar ou reorganizar seus planos de previdência fechada. O papel de consolidador envolve oferecer escala, governança, eficiência operacional, experiência técnica e suporte na administração desses planos.
Na prática, muitas empresas enfrentam desafios relacionados à complexidade regulatória, custos, gestão, comunicação com participantes e necessidade de modernização. Uma estrutura consolidada pode ajudar a simplificar esse processo e oferecer mais segurança para patrocinadoras e participantes.
Como o Multipensions Bradesco se encaixa nessa estratégia?
MI: O Bradesco MultiPensions é uma estrutura multipatrocinada de previdência fechada. Isso significa que diferentes empresas podem aderir a uma plataforma já estruturada, sem a necessidade de criar uma entidade própria para administrar seus planos.
Esse modelo pode ser interessante para empresas que desejam oferecer previdência fechada com governança, escala e administração especializada. Ele ajuda a reduzir complexidades operacionais e permite que a patrocinadora conte com uma estrutura preparada para a gestão previdenciária, mantendo o foco na oferta de um benefício relevante aos colaboradores.
Considerando longevidade, educação financeira e retenção de talentos, quais são as perspectivas para a previdência fechada no Brasil?
MI: A tendência é que a previdência fechada ganhe cada vez mais relevância dentro das estratégias de benefícios corporativos. O aumento da longevidade exige maior planejamento financeiro, enquanto empresas buscam formas de oferecer benefícios mais valorizados e conectados ao futuro dos colaboradores.
Nesse cenário, a previdência fechada pode ocupar um espaço importante por unir educação financeira, proteção de longo prazo e gestão estratégica de pessoas. Para o mercado, o desafio será ampliar a compreensão sobre o tema, simplificar a comunicação e mostrar que esse benefício pode gerar valor tanto para empresas quanto para trabalhadores.
N.G.
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