EXCLUSIVO – As fortes chuvas que atingiram diferentes regiões do país nos primeiros meses de 2026, com episódios de alagamentos, deslizamentos, mortes, interrupção de serviços e milhares de pessoas afetadas, recolocaram no centro do debate um tema que vinha ganhando espaço no mercado segurador: o Brasil entrou em uma fase de maior exposição climática, marcada por eventos extremos mais frequentes, perdas econômicas crescentes e aumento da pressão sobre mecanismos públicos e privados de resposta.

Ao mesmo tempo, projeções meteorológicas indicam possibilidade de retorno do El Niño e La Niña, fenômenos historicamente associado a alterações relevantes no regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do país e no mundo, agora no segundo semestre do ano. Para seguradoras e resseguradoras, o cenário já não permite tratar desastres naturais como episódios pontuais ou desvios estatísticos.

O debate passou a envolver temas mais complexos: como precificar riscos em transformação, como manter coberturas acessíveis, como ampliar a proteção de populações vulneráveis, como preservar capacidade de resseguro e como financiar adaptação climática em uma economia ainda pouco segurada.

Claudia Prates, diretora de Sustentabilidade da CNseg

Na avaliação da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), representada por Claudia Prates, diretora de Sustentabilidade da entidade, o agravamento climático torna o seguro uma ferramenta estratégica de resiliência econômica e social. “O enfrentamento dos riscos climáticos exige cooperação entre os setores público e privado, investimentos em infraestrutura resiliente e valorização do seguro como instrumento de segurança econômica e social”, aponta.

Levantamento da CNseg mostra que apenas cerca de 9% das perdas econômicas provocadas por desastres climáticos no Brasil contam hoje com cobertura securitária. Entre 2022 e 2024, foram mapeados 67 eventos relevantes, com prejuízos estimados em R$ 184 bilhões. Em 2025, até junho, outros 10 episódios já acumulavam perdas de R$ 31 bilhões.

Os dados evidenciam a chamada lacuna de proteção, diferença entre o prejuízo econômico total e a parcela efetivamente indenizada por seguros. Em termos práticos, significa que grande parte do custo de reconstrução acaba recaindo sobre famílias, empresas, produtores rurais e pastas do governamentais.

A desigualdade regional se aprofunda nesse quadro. Claudia Prates, comenta que enquanto o Sul apresenta nível de cobertura próximo de 16%, Norte e Nordeste registram índices muito inferiores, de 0,2% e 2%, respectivamente. Em países desenvolvidos, esse percentual costuma variar entre 20% e 55%. “A vulnerabilidade não depende apenas da intensidade dos eventos, mas também do nível de resiliência dos territórios. Nesse sentido, as regiões Norte e Nordeste geram preocupação adicional, por combinarem maior vulnerabilidade socioeconômica, ocupação urbana mais precária e níveis muito baixos de proteção securitária”, explica.

A pressão financeira sobre estados e municípios também cresceu neste ano. Levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) mostrou que, até 25 de março, as chuvas do verão de 2026 já haviam provocado R$ 3,8 bilhões em prejuízos, 107 mortes e impactos em 702 municípios brasileiros. A Susep também mantém grupo de trabalho com seguradoras, resseguradoras, academia e especialistas internacionais para discutir soluções voltadas ao risco catastrófico, compartilha a CNseg.

Para o mercado de resseguros, o problema não se limita ao patrimônio privado. Daniel Castillo, vice-presidente de Resseguros do IRB(Re), afirma que o Brasil possui mais de R$ 1 trilhão em bens públicos, como rodovias, hospitais e equipamentos essenciais, sem cobertura relevante do mercado segurador. Em grandes catástrofes, isso amplia a pressão fiscal e transfere ao Estado parcela significativa da conta.

Daniel Castillo, vice-presidente de Resseguros do IRB(Re)

Nova leitura de risco

As ocorrências registradas já no início do ano reforçaram a percepção de que o risco climático se tornou estrutural. Fortes chuvas em Minas Gerais, Pará, São Paulo e outras regiões voltaram a pressionar sistemas urbanos, afetar comércio, mobilidade, logística e gerar danos patrimoniais relevantes.

O caso mais emblemático ocorreu na Zona da Mata mineira. Em fevereiro, enchentes e deslizamentos atingiram cidades como Juiz de Fora e Ubá. Em 25 de fevereiro, o balanço das autoridades apontava 46 mortos, 21 desaparecidos e cerca de 3.600 desalojados. Juiz de Fora registrou o fevereiro mais chuvoso de sua história recente, segundo autoridades locais, com acumulados muito acima da média histórica. Na leitura de Claudia Prates, a recorrência e intensidade dos episódios recentes indicam mudança de padrão. “O risco climático passou a ter caráter estrutural. Isso exige nova abordagem, com maior foco em prevenção, adaptação e construção de resiliência”.

Fatima Lima, diretora de Sustentabilidade da Mapfre

Esse diagnóstico segue semelhante no radar da Seguradora Mapfre segue um diagnóstico semelhante. A diretora de Sustentabilidade da companhia, Fátima Lima, compartilha que a volatilidade climática deixou de ser exceção operacional. “Ela passou a fazer parte do cenário base de gestão”, conta. Na prática, isso significa que eventos antes tratados como choques extraordinários agora entram no planejamento anual, nos modelos de capital, nas reservas técnicas e nas estratégias de subscrição.

Relatório anual do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) apontou que 2025 foi um dos anos mais extremos do ponto de vista climático das últimas décadas no Brasil, marcado por recordes de calor, seca prolongada e episódios severos de chuva intensa em diferentes regiões. O órgão informou ainda ter emitido 2.505 alertas de risco geo-hidrológico para 1.133 municípios monitorados ao longo do ano.

Para o setor, esse dado reforça que o agravamento do risco não depende exclusivamente de eventos clássicos como El Niño ou La Niña, mas de uma combinação mais ampla entre variabilidade climática e aquecimento global. Uma das maiores dificuldades do setor é que séries históricas tradicionais perderam parte de sua capacidade explicativa. Modelos atuariais foram construídos, em larga medida, com base na premissa de relativa estabilidade da frequência e severidade dos eventos ao longo do tempo. Essa lógica passou a ser questionada.

O IRB(Re), por meio do IRB(P&D), lançou uma base climática nacional com 68 índices padronizados ligados a extremos de chuva, seca, temperatura máxima e mínima, umidade, evapotranspiração, velocidade do vento e radiação solar. O estudo considera dados entre 1961 e 2024 e busca quantificar tendências relevantes para o setor segurador. Para melhorar essa leitura, Reinaldo Marques, superintendente do IRB(P&D), conta que as análises foram organizadas por clusters de bacias hidrográficas com características semelhantes. Isso reduz ruído local e permite maior robustez estatística. O longo período analisado permite compreender o comportamento do clima e validar estudos futuros com base no conhecimento da variabilidade histórica.

Reinaldo Marques, superintendente do IRB(P&D)

Também foi aplicada a distribuição Generalizada de Valores Extremos (GEV), técnica utilizada para modelar máximos históricos e estimar períodos de retorno, ou seja, a frequência média com que eventos de determinada magnitude tendem a ocorrer. Na prática, essa modelagem ajuda a recalibrar preços, limites, reservas e programas de proteção. “Eventos dessa proporção eram raros no Brasil e agora ocorrem com mais frequência e magnitudes bem maiores do que constam nas estatísticas históricas”, afirmou Reinaldo.

Entre os principais achados do levantamento estão concentração de chuvas intensas no Sul e Sudeste e persistência de secas prolongadas no Nordeste e Centro-Oeste. Esses eventos correspondem a episódios de chuvas intensas e acumuladas, que impactam fortemente a infraestrutura urbana, o transporte e o setor produtivo, gerando prejuízos econômicos significativos. A recorrência de extremos em locais de maior concentração de ativos reforça a importância de instrumentos de resseguro e modelagem atuarial regionalizada para absorção das perdas.

Como isso chega ao preço do seguro

O avanço da frequência e severidade dos eventos climáticos tende a pressionar a precificação em diferentes linhas: patrimonial, automóvel, rural, infraestrutura, transportes e grandes riscos corporativos. Segundo Fátima Lima, da Mapfre, o movimento já inclui revisão mais frequente de tarifas, mudanças em franquias, limites de cobertura, critérios de aceitação e condições contratuais mais aderentes ao risco local.

Em áreas mais expostas, Daniel Castillo afirma que companhias avaliam sublimites regionais, maior exigência de prevenção, monitoramento detalhado de concentração geográfica e maior uso de resseguro para absorver perdas agregadas. “Temos nos preparado com modelos climáticos robustos, modelagem de catástrofe e Big Data para geração de simulações e hipóteses de risco”, explica.

A CNseg observa, porém, que no Brasil o encarecimento não decorre apenas da piora climática. A baixa penetração do seguro também pesa de forma decisiva. Com base segurada pequena, o risco permanece concentrado. A diversificação atuarial é menor, a previsibilidade cai e o prêmio médio tende a subir. Além disso, em muitos produtos a cobertura climática é opcional, o que pode gerar antisseleção: a procura se concentra justamente onde o risco é maior.

O setor também acelera investimentos em dados e inteligência analítica. O avanço no uso de georreferenciamento, machine learning, imagens de satélite, dados meteorológicos em tempo real, histórico de perdas e modelos prospectivos de aquecimento global.

Na Mapfre, Fátima Lima explica que a subscrição passou a integrar diversas camadas de informação para avaliar riscos como inundação, deslizamento, vento e granizo. O objetivo é qualificar a decisão no momento de entrada do risco, etapa considerada crítica para a qualidade futura da carteira.

Já no IRB(Re), o uso de big data e modelagem de catástrofe vem sendo ampliado. Segundo a companhia, esse conjunto de ferramentas ajuda inclusive na negociação contratual com seguradoras, com cláusulas específicas de proteção, Loss Cap e limites voltados a evitar concentração excessiva de exposição. “Com base nessas informações, o ressegurador negocia com as seguradoras cláusulas para aumentar sua proteção em contratos”, pontua Castillo.

Outra companhia que também acompanha esse movimento é a Zurich. José Bailone, diretor executivo de Seguros Corporativos da companhia, afirma que ferramentas proprietárias combinam dados históricos, variáveis meteorológicas e cenários futuros para apoiar análise de riscos em empresas e governos. A companhia utiliza a plataforma Climate Spotlight para avaliar exposição a múltiplos riscos climáticos e simular cenários futuros de aquecimento global.

Além dos eventos já observados, outro fator acompanha o planejamento das companhias: a possível volta do El Niño ao longo de 2026. O fenômeno costuma provocar impactos distintos no Brasil, com maior probabilidade de chuvas acima da média no Sul e irregularidade hídrica em outras regiões, a depender da intensidade e do momento do ciclo. Na Zurich, a combinação entre extremos recentes e incerteza prospectiva mantém nível de alerta elevado. “O nível de risco climático para o Brasil permanece alto e exige atenção constante”, observa José Bailone.

Para o mercado, o tema importa não apenas pelo evento climático em si, mas pelo efeito combinado sobre safras, energia, logística, cadeias produtivas e sinistralidade. Segundo Bailone, relatório do Fórum Econômico Mundial aponta os eventos climáticos extremos entre os principais riscos globais no curto e no longo prazo, reforçando a importância de abordagens baseadas em resiliência, prevenção e ampliação do acesso ao seguro.

José Bailone, diretor executivo de Seguros Corporativos da Zurich Seguros

Seguro rural na centro da agenda

A agenda climática recolocou o seguro rural entre os temas centrais do setor. Secas prolongadas, chuvas excessivas, geadas, granizo e maior irregularidade climática elevam a volatilidade de produtividade e ampliam a necessidade de proteção financeira no campo. Daniel Castillo, do IRB(Re), avalia que o principal gargalo continua sendo o custo. Como o seguro agrícola possui componente catastrófico relevante, a taxa tende a ser elevada para o produtor sem apoio governamental.

Nesse contexto, a subvenção ao prêmio segue vista pelo mercado como instrumento decisivo para ampliar escala, desconcentrar risco e tornar a cobertura viável economicamente. Outro entrave recorrente citado por Daniel Castillo é a ausência de uma base ampla e detalhada de dados por município, cultura e apólice, o que dificulta a precificação mais refinada.

A Mapfre afirma ter ampliado uso de imagens de satélite e dados climáticos no agro tanto para subscrição quanto para agilizar regulação de sinistros, permitindo acesso mais rápido ao recurso pelo produtor. Além da pressão técnica, seguradoras relatam mudança importante no comportamento dos clientes. Eventos como enchentes, secas prolongadas e ondas de calor passaram a ser percebidos por consumidores e empresas como parte da realidade cotidiana, e não mais como exceções raras. Na visão de Fátima Lima, da Mapfre, isso vem alterando a relação do cliente com o seguro, que deixa de ser visto apenas como custo e passa a ganhar espaço como instrumento de continuidade patrimonial e operacional.

No seguro automóvel, eventos como alagamentos já estão contemplados em coberturas amplas comercializadas no mercado, segundo a executiva da Mapfre. “esse tipo de cobertura já faz parte da cobertura básica, sem necessidade de contratação adicional”, pontua.

Nathalia Abreu, superintendente de Sustentabilidade da Zurich Seguros

Além do seguro tradicional, algumas companhias ampliaram atuação social e preventiva diante do novo cenário climático. A Zurich e a Zurich Santander anunciaram novo aporte de R$ 2 milhões ao Fundo de Catástrofes para 2026. Criado em parceria com o Movimento União BR e o Instituto da Criança, o mecanismo já destinou mais de R$ 20 milhões ao longo de seis anos, beneficiando cerca de 550 mil pessoas em diferentes regiões do país. Segundo Nathalia Abreu, superintendente de Sustentabilidade na Zurich, o fundo opera com governança pré-definida e costuma ser acionado a partir de decretos de calamidade pública ou situação de emergência. A liberação de recursos ocorre, em média, entre três e cinco dias após a decisão, prazo inferior ao observado em estruturas tradicionais, frequentemente próximas de 20 dias.

Nos últimos anos, o mecanismo ampliou escopo. Além da resposta emergencial, passou a apoiar reconstrução e iniciativas preventivas. Desde 2025, o fundo passou a admitir também ações pré-catástrofe, permitindo apoio antecipado em contextos de risco iminente. No mesmo ano, financiou a compra de 20 botes de resgate rápido destinados à Defesa Civil do Estado de São Paulo para reforço da preparação ao período de chuvas. Nathalia Abreu aponta que seguradoras precisam ampliar atuação para além da transferência tradicional de risco, usando conhecimento técnico para apoiar resiliência de comunidades e clientes. “Isso significa usar nossa expertise em gestão de riscos para apoiar a construção de resiliência, tanto de clientes quanto de comunidades, especialmente em países como o Brasil, onde o gap de proteção securitária ainda é muito expressivo”, comenta.

A mudança climática também abriu nova frente comercial para o setor. Entre as apostas aparecem seguros paramétricos, coberturas ambientais, proteção para infraestrutura crítica, soluções para energia renovável e produtos ligados à transição climática.

Na Mapfre, um exemplo recente foi o chamado biosseguro lançado durante a COP30, em Belém, voltado a projetos de restauração florestal e crédito de carbono. Segundo Fátima Lima, a cobertura busca preservar a continuidade econômica do projeto diante de incêndios ou degradação ambiental, incluindo, quando aplicável, recomposição de créditos de carbono. Esse tipo de produto amplia o papel do seguro como indutor de soluções baseadas na natureza.

Claudia Prates, da CNseg, avalia que seguros paramétricos ainda são pontuais no Brasil, sobretudo por desafios de modelagem e qualidade de dados meteorológicos. Mas o segmento é visto como promissor, especialmente pela rapidez de pagamento e simplicidade operacional. O setor sustenta que a resposta ao risco climático não depende apenas de apólices e resseguros. Exige também infraestrutura adaptada.

Em 2025, o Ministério das Cidades informou destinação de R$ 11,7 bilhões para prevenção de desastres no âmbito do Novo PAC, sendo R$ 10,3 bilhões para drenagem urbana e R$ 1,4 bilhão para contenção de encostas. Para especialistas, esse tipo de investimento é decisivo para reduzir perdas futuras e preservar a viabilidade econômica da cobertura securitária em regiões mais expostas. Na avaliação de Daniel Castillo, do IRB(Re), o mercado segurador brasileiro segue solvente e resiliente, mas ainda distante do nível de proteção observado em economias maduras.

Em países desenvolvidos, ativos de seguradoras e resseguradoras equivalem frequentemente a 70% a 100% do PIB. Em países em desenvolvimento, essa relação costuma variar entre 10% e 20%. No Brasil, outro alerta citado pelo executivo é a velocidade de crescimento da lacuna de proteção. Segundo ele, o hiato avança em ritmo superior ao crescimento do próprio mercado segurador. O IRB(Re) estima expansão próxima de 20% ao ano para a lacuna, ante cerca de 12% de crescimento do setor. Isso reforça discussões sobre novos instrumentos financeiros, parcerias público-privadas, fundos de catástrofe, proteção para populações vulneráveis e cobertura de infraestrutura crítica. “O Brasil tem, por exemplo, mais de R$ 1 trilhão de bens públicos, como estradas e hospitais, sem proteção do mercado segurador”, comenta Castillo.

O IRB(Re) também ampliou sua cobertura contra catástrofes no Brasil, elevando o limite de R$ 700 milhões para mais de R$ 1 bilhão e incluindo sinistros de automóveis e riscos diversos no escopo do programa.

O cenário é claro, com eventos extremos já registrados nos primeiros meses do ano e maior instabilidade climática no horizonte, 2026 deve acelerar revisões de preços, coberturas e modelos de risco no mercado segurador. Mais do que responder a sinistros, o setor entra em uma fase em que adaptação técnica e capacidade financeira passam a ser centrais para sustentar a expansão da proteção no país. “O enfrentamento dos riscos climáticos exige cooperação entre os setores público e privado, investimentos em infraestrutura resiliente e valorização do seguro como instrumento de segurança econômica e social”. conclui Claudia Prates.

Nicholas Godoy

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