EXCLUSIVO – O avanço dos planos odontológicos no Brasil vem reposicionando a odontologia suplementar dentro da agenda estratégica da saúde suplementar. Em meio ao crescimento acelerado da base de beneficiários, o setor passou a conviver com discussões mais intensas sobre sustentabilidade econômica, integração assistencial, fiscalização e revisão dos modelos de remuneração entre operadoras e prestadores.

Foi nesse cenário que aconteceu, nos dias 14 e 15 de maio, em São Paulo, a segunda edição do Congresso da SINOG. Com o tema “Cuidado Integral”, o encontro reuniu representantes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), executivos, operadoras, especialistas e autoridades públicas para discutir os principais desafios regulatórios, econômicos e assistenciais da odontologia suplementar.

Roberto Seme Cury, Presidente do SINOG

Na solenidade de abertura do congresso, o presidente da SINOG, Roberto Seme Cury, afirmou que o setor atravessa um momento de transformação estrutural e defendeu a construção de um modelo mais integrado de cuidado, sem perder de vista a sustentabilidade da odontologia suplementar. “É justamente olhando para o presente e para o futuro que escolhemos como tema deste congresso o cuidado integral, modelo que vem se consolidando ao integrar qualidade assistencial, eficiência e um relacionamento baseado em diálogo contínuo sobre as necessidades dos beneficiários, sem perder de vista a sustentabilidade do segmento odontológico”, declarou.

Ao longo do discurso, Cury destacou que o avanço da odontologia suplementar exige maior aproximação entre operadoras, reguladores e demais agentes da cadeia, especialmente diante das mudanças regulatórias em curso no setor.

O executivo também fez um balanço de sua gestão à frente da entidade, que se encerra em agosto deste ano, e relembrou o processo de fortalecimento institucional da associação ao longo das últimas décadas. Segundo ele, as associadas da SINOG representam atualmente cerca de 73% dos beneficiários de planos odontológicos do país. “Esses movimentos refletem não apenas a evolução da SINOG, mas o fortalecimento de todo o setor, que hoje se apresenta mais estruturado, mais representativo e mais preparado para os desafios que virão”, disse.

Entre os pontos destacados pela entidade estão o fortalecimento da interlocução regulatória junto à ANS, o avanço das discussões sobre acreditação e qualidade assistencial e iniciativas voltadas à conscientização em saúde bucal, como o Julho Neon, campanha que aguarda sanção presidencial para se tornar oficialmente uma ação nacional permanente de promoção da saúde bucal.

Integração entre saúde pública e suplementar

Outro eixo relevante do congresso foi o debate sobre ESG e políticas públicas voltadas à saúde bucal. Durante painel sobre o tema, o coordenador de Saúde Bucal do Ministério da Saúde, Edson Hilan Gomes de Lucena, apresentou um panorama da política nacional de saúde bucal e defendeu maior integração entre os sistemas público e privado. “O sistema de saúde no Brasil se complementa com essas outras ofertas. Elas não podem ser concorrentes. Não é com esse olhar que fazemos a gestão”, pontuou.

O representante do Ministério da Saúde também ressaltou que a incorporação da saúde bucal ao escopo obrigatório do SUS representa um dos principais avanços recentes da política pública no segmento. “Hoje, o gestor é obrigado a ofertar saúde bucal dentro do sistema de saúde”, disse.

Ao longo da apresentação, Edson Hilan detalhou a estrutura da rede pública odontológica, incluindo equipes de atenção básica, Centros de Especialidades Odontológicas (CEOs), unidades móveis, atendimento hospitalar e ações preventivas realizadas em escolas e comunidades. Segundo ele, um dos principais desafios da política pública está justamente na integração entre os diferentes níveis de atendimento. “Nosso grande desafio enquanto política pública é fazer com que esses serviços se conectem”.

O representante também apresentou dados relacionados aos gargalos da gestão pública em saúde bucal, como fragmentação da rede assistencial, desigualdade de acesso, necessidade de maior eficiência operacional e desafios ligados à infraestrutura e inovação tecnológica.

Edson Hilan Gomes de Lucena, coordenador de Saúde Bucal do Ministério da Saúde

Nova agenda regulatória

O painel sobre a Agenda Regulatória 2026-2028 reuniu representantes da Agência e lideranças para discutir os impactos do crescimento da odontologia suplementar sobre temas como fiscalização, qualidade assistencial, remuneração, contratualização e sustentabilidade econômica.

Na abertura do painel, Roberto Cury voltou a defender o reconhecimento das especificidades da odontologia suplementar dentro da regulação da saúde suplementar. “Somos uma atividade regulada e é fundamental que a gente saiba exatamente que a odontologia tem diferenças importantes”, frisou. Segundo ele, a SINOG vem ampliando o diálogo técnico com a ANS em temas ligados à acreditação, indicadores assistenciais e adequação regulatória para o segmento odontológico. “Tivemos algumas vitórias, outras ainda não tivemos, mas vamos continuar tentando”, completou Cury.

A diretora de Normas e Habilitação de Produtos da ANS, Lenise Secchin, afirmou que a odontologia possui papel estratégico não apenas na assistência, mas também na prevenção e promoção da saúde integral. “A saúde começa pela boca”, afirmou.

A executiva também destacou o potencial de expansão do segmento, lembrando que mais de 160 milhões de brasileiros ainda não possuem acesso a planos odontológicos. “Temos uma oportunidade de mais de 200 milhões de brasileiros e ainda mais de 160 milhões de pessoas sem planos odontológicos. Olha o potencial de crescimento que esse mercado apresenta”, comentou.

Durante a apresentação, representantes da agência detalharam as mudanças relacionadas ao novo modelo regulatório e de fiscalização da ANS, com destaque para as Resoluções Normativas 623, 656, 657, 658 e 659.

Entre os principais pontos apresentados estão:

fortalecimento dos canais de atendimento das operadoras;

fiscalização planejada;

análise amostral de demandas;

atualização do valor das multas;

dosimetria das sanções conforme porte econômico;

metas de excelência relacionadas ao Índice Geral de Reclamações (IGR).

A RN 658 foi apresentada dentro de uma lógica de regulação responsiva, priorizando inicialmente medidas indutoras e corretivas antes da aplicação de ações punitivas.

A diretora adjunta de Gestão da ANS, Angélica Carvalho, afirmou que o avanço regulatório exige uma visão mais integrada da saúde suplementar, principalmente diante do envelhecimento populacional e da pressão crescente sobre os custos assistenciais. “Precisamos olhar o paciente do ponto de vista do sistema. Se a gente não integrar as forças do cuidado em saúde, vamos continuar tratando a consequência e não a causa”, explicou.

Angélica também fez ponderações sobre o uso de tecnologia e inteligência artificial dentro da saúde suplementar. “Nem sempre inovação, nem sempre inteligência artificial, vai gerar resultado do ponto de vista assistencial. Depende de como a gente vai alimentar as decisões a serem tomadas”.

Já o diretor adjunto de Desenvolvimento Setorial da ANS, Andrey Corrêa, defendeu maior convergência entre regulador, operadoras, prestadores e demais agentes da cadeia para o avanço das políticas públicas do setor. “Política pública de qualidade só se faz buscando convergências entre os atores que compõem o setor”, fomentou.

Segundo ele, temas como remuneração, contratualização, acreditação e qualidade assistencial devem ganhar ainda mais relevância nas discussões regulatórias dos próximos anos, acompanhando o avanço da odontologia suplementar no país. Ao longo do congresso, o conceito de “cuidado integral” apareceu de forma recorrente nos debates como reflexo de uma mudança mais ampla dentro da saúde suplementar.

Nicholas Godoy, de São Paulo

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