EXCLUSIVO – A Copa do Mundo de 2026 volta a colocar o futebol sob uma lente que vai além da disputa esportiva. Em um cenário de alta intensidade física, calendário globalizado e valorização crescente dos atletas, lesões deixaram de ser apenas eventos médicos para se tornarem ocorrências com impacto direto na estrutura financeira dos clubes.
Jogadores profissionais são tratados hoje como ativos econômicos de alto valor, cuja performance influencia contratos, receitas de imagem, negociações de transferência e planejamento esportivo. Nesse ambiente, uma lesão grave pode representar não apenas a perda de um atleta em campo, mas uma ruptura significativa no fluxo financeiro de organizações esportivas.
No futebol, a lógica esportiva passou a conviver com uma lógica financeira cada vez mais sofisticada. O valor de um jogador não está restrito ao desempenho dentro das quatro linhas, mas também à sua capacidade de geração de receita ao longo da carreira.
Nesse contexto, uma lesão grave altera diretamente o equilíbrio econômico dos clubes. Além dos custos com salários durante o afastamento, há impactos em desempenho esportivo, planejamento de elenco, receitas comerciais e, em alguns casos, desvalorização de mercado.
Grandes competições internacionais funcionam como catalisadores desse risco. A Copa do Mundo concentra atletas de alto valor sob condições de intensa exigência física, ampliando a exposição a lesões em um curto espaço de tempo. A natureza do torneio, com jogos eliminatórios e alta carga competitiva, aumenta a sensibilidade do mercado para episódios de afastamento de jogadores-chave. Nesse cenário, o risco deixa de ser apenas esportivo e passa a ter leitura financeira imediata.
No plano institucional, a FIFA mantém o Club Protection Programme (CPP), mecanismo criado para compensar clubes quando atletas sofrem lesões durante convocações para seleções nacionais. O programa funciona como uma estrutura global de reembolso salarial e cobre exclusivamente casos de incapacidade temporária total (Temporary Total Disablement – TTD), ou seja, quando o atleta fica impossibilitado de atuar profissionalmente por determinado período.
A indenização é calculada com base no salário fixo do jogador e pode alcançar até € 7,5 milhões por atleta por lesão, com cobertura diária aproximada de € 20,5 mil. O sistema estabelece ainda um período de carência de 28 dias, ou seja, a compensação só começa a ser paga a partir do 29º dia de afastamento. Outro detalhe é o limite global do programa, que opera com uma capacidade anual estimada em torno de € 80 milhões para cobertura de todos os atletas elegíveis no mundo.
Apesar de funcionar como uma rede internacional de proteção financeira entre clubes e seleções, o CPP possui escopo restrito. O programa cobre apenas parte do salário do atleta afastado e não contempla elementos que hoje compõem uma parcela relevante da economia do futebol profissional, como contratos de imagem, bônus por desempenho, custos médicos, despesas de reabilitação, perda de valor de mercado ou invalidez permanente.
Na prática, o modelo atua apenas sobre uma fração do risco econômico real envolvido no futebol de elite, deixando uma lacuna relevante que acaba sendo parcialmente ocupada por soluções do mercado privado de seguros.
O contraste só demonstra a transformação do futebol em uma indústria global bilionária. Se no passado uma lesão era vista principalmente como um problema esportivo, hoje ela também representa um evento capaz de afetar ativos milionários, contratos comerciais e projeções financeiras de curto e longo prazo.
A teoria encontra exemplos reais dentro da própria Copa do Mundo. Um dos casos mais recentes envolve o meio-campista canadense Ismaël Koné. Durante a partida entre Canadá e Catar, válida pela fase de grupos do Mundial, o jogador sofreu uma grave fratura na perna após uma entrada do catariano Assim Madibo. Koné precisou passar por cirurgia e foi cortado do restante da competição.
Koné após lesão em Canadá x Catar • Photo by Jared C. Tilton – FIFA/FIFA via Getty Images)
O caso de Koné não é isolado. Nos últimos anos, atletas como Neymar Jr., Éder Militão, Estêvão e Rodrygo também enfrentaram lesões em momentos decisivos de suas carreiras. Em comum, os episódios evidenciam como problemas físicos podem comprometer planejamento esportivo, interromper sequências de jogos e até afastar atletas de competições relevantes, incluindo compromissos da Copa do Mundo e de torneios importantes da temporada.
Os episódios reforçam um ponto central: no futebol moderno, a lesão de um atleta não se limita ao campo médico. Ela afeta contratos, planejamento esportivo, expectativas de retorno financeiro e a própria estratégia de clubes que operam com ativos cada vez mais valiosos.
Na avaliação da vertical de Benefícios do Grupo REP, a gestão de risco no esporte parte de um princípio fundamental, ou seja o atleta como centro da estrutura de proteção. “Quando um jogador se lesiona, quem sente primeiro é ele: a carreira pode ser interrompida e a renda fica ameaçada”, analisa Maurício Junqueira, sócio e diretor comercial da REP Benefícios.
A preocupação ganha relevância diante de uma característica própria da profissão. Diferentemente de outras carreiras, a vida útil de um atleta profissional costuma ser relativamente curta e concentrada justamente nos anos de maior exigência física. “O atleta vive de seu corpo e de sua capacidade de competir, e uma lesão grave pode afetar diretamente sua renda e sua trajetória”, explica.
Maurício Junqueira, da REP Benefícios
Muitos jogadores investem integralmente nesse período, sustentam familiares e dependem diretamente de sua capacidade de competir para manter a geração de renda. Por isso, uma lesão grave pode produzir consequências que ultrapassam o ambiente esportivo e alcançam toda a estrutura financeira construída ao redor da carreira.
Na visão do executivo da REP, eventos como a Copa do Mundo reforçam a percepção de que o seguro esportivo não se limita à proteção do atleta, mas também à estabilidade de todo o ecossistema que depende dele. As soluções disponíveis no mercado incluem seguros de vida, acidentes pessoais, invalidez temporária ou permanente, cobertura de despesas médicas, proteção de renda durante afastamentos e mecanismos voltados a contratos de imagem.
No caso dos clubes, também existem estruturas voltadas à mitigação dos impactos financeiros decorrentes da ausência de atletas considerados estratégicos para o desempenho esportivo e comercial da equipe. A contratação dessas coberturas exige avaliação detalhada do perfil do atleta. Aspectos como idade, histórico de lesões, posição em campo, intensidade da atividade, calendário de competições, modalidade esportiva e exames médicos costumam influenciar diretamente a análise de risco e a definição das condições da apólice.
Além da Lei Pelé
No Brasil, a legislação esportiva já prevê uma proteção mínima aos atletas profissionais, por exemplo, a chamada Lei Pelé que determina que os clubes mantenham seguro de vida e de acidentes pessoais para seus jogadores, garantindo cobertura em situações como morte ou invalidez relacionadas à atividade profissional.
Na avaliação, essa proteção representa apenas o piso regulatório. Segundo Maurício, as soluções desenvolvidas pelo mercado segurador podem ampliar significativamente o escopo das coberturas ao incluir proteção de renda, despesas médicas, afastamentos prolongados, invalidez temporária ou permanente e outras situações que podem comprometer a continuidade da carreira esportiva.
Apesar da evolução observada nos últimos anos, o mercado brasileiro de seguros esportivos ainda é considerado relativamente incipiente quando comparado a mercados mais maduros.
Grande parte dos clubes permanece concentrada no cumprimento das exigências legais, enquanto estruturas mais sofisticadas ainda estão restritas a operações específicas ou atletas de maior valor econômico. “Transformar o seguro de uma exigência documental em uma ferramenta real de proteção é o grande desafio. Ainda existe muito espaço para evolução na forma como atletas, clubes e demais agentes enxergam a gestão de risco dentro do esporte”, afirma.
Outro movimento que vem transformando esse lado, é a entrada das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) que adiciona uma nova camada à discussão sobre risco esportivo. Com estruturas de governança mais próximas do ambiente corporativo, os clubes passam a incorporar práticas de gestão financeira mais sofisticadas, incluindo a análise de risco como parte do planejamento estratégico.
Nesse modelo, uma lesão de atleta-chave deixa de ser apenas um problema esportivo e passa a ser tratada como uma variável capaz de impactar receitas, fluxo de caixa, desempenho operacional e previsibilidade financeira. A partir disso, Maurício observa que a profissionalização da gestão tende a ampliar a preocupação dos clubes com mecanismos de proteção patrimonial e continuidade financeira. “O atleta vive de seu corpo e de sua capacidade de competir. Quando ele fica impossibilitado de atuar, os reflexos podem alcançar não apenas sua carreira, mas toda a estrutura construída ao redor dela”, destaca.
A lógica empresarial também amplia a preocupação de investidores e acionistas com mecanismos que reduzam a exposição a perdas decorrentes da indisponibilidade de atletas considerados ativos estratégicos.
Com a chegada das SAFs, lesões passaram a ser discutidas não apenas entre médicos, preparadores físicos e comissões técnicas, mas também em departamentos financeiros, conselhos de administração e estruturas de governança. Segundo o executivo, esse movimento tem contribuído para aumentar o interesse por soluções mais estruturadas de transferência e gerenciamento de riscos.
Seguros mais integrados e personalizados
A evolução do mercado aponta para um movimento de integração entre seguros, medicina esportiva e análise de dados. A tendência é o desenvolvimento de soluções mais personalizadas, com foco em proteção de renda, cobertura de afastamentos prolongados, invalidez, despesas médicas e contratos de imagem, considerando as particularidades de cada atleta e modalidade esportiva.
No Brasil, essa evolução dependerá tanto da maturidade dos clubes quanto da capacidade do mercado segurador de desenvolver produtos aderentes à realidade econômica do esporte nacional. O avanço da profissionalização do futebol e a valorização crescente dos atletas consolidam um cenário em que lesões já não podem ser interpretadas apenas como eventos esportivos.
A tendência observada globalmente aponta para uma integração crescente entre seguros, medicina esportiva e análise de dados. O desenvolvimento de produtos mais personalizados, capazes de considerar características específicas de cada atleta, modalidade e nível de exposição ao risco, deve ganhar espaço nos próximos anos.
No Brasil, essa evolução dependerá tanto da maturidade dos clubes quanto da capacidade do mercado segurador de desenvolver soluções aderentes à realidade econômica. “Numa carreira curta, de alto investimento e que frequentemente sustenta toda uma família, proteger a saúde, a renda e o futuro do atleta é essencial. Ao mesmo tempo, esse cuidado protege também os clubes, que ganham previsibilidade financeira e segurança diante de imprevistos, fortalecendo a sustentabilidade de todo o ecossistema esportivo”, conclui.
Nicholas Godoy
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