EXCLUSIVO – “Diferente de um terremoto, o nosso desastre avisa.” A reflexão do cientista social Élcio Batista sintetizou o principal mensagem no encontro “Seguro Habitacional e Eventos Climáticos – Desafios e Oportunidades”, realizado na tarde desta terça-feira (28), em São Paulo.

Promovido pela Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), com apoio da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e da Escola de Negócios e Seguros (ENS), o evento reuniu especialistas que defenderam a necessidade de rever a gestão de riscos e ampliar a cultura do seguro diante da intensificação dos eventos climáticos.

Durante a abertura, o diretor executivo da Comissão de Seguro Habitacional da FenSeg, Danilo Silveira, ressaltou que o seguro habitacional já oferece uma proteção ampla, mas ainda pode incorporar soluções desenvolvidas em outras carteiras para ampliar sua capacidade de resposta diante da intensificação dos eventos extremos. “O seguro habitacional é um produto completo, mas temos muito a aprender com outras carteiras para torná-lo ainda mais abrangente”, destacou.

Na sequência, a presidente da comissão, Elaine Fraqueta, observou que enchentes, tempestades e outros fenômenos extremos passaram a fazer parte da rotina da sociedade, tornando indispensável que o setor esteja cada vez mais preparado para proteger as famílias brasileiras.

O primeiro momento do evento foi conduzido pelo CEO da Guy Carpenter Brasil, Pedro Farme, que apresentou um panorama sobre os impactos dessas mudanças climáticas para os mercados de seguros e resseguros. Em sua avaliação, o Brasil passou a figurar entre os países acompanhados com maior atenção pelas resseguradoras internacionais após eventos recentes, como as enchentes no Rio Grande do Sul, desastres em Minas Gerais e as fortes chuvas registradas em São Paulo.

Em nível global, levantamento apresentado pelo executivo destacou que o ano de 2025 registrou US$ 224 bilhões em perdas econômicas provocadas por desastres naturais e US$ 108 bilhões em perdas seguradas. Apesar da redução em relação a 2024, o número de fatalidades aumentou 56%, indicando que a menor perda financeira não representa, necessariamente, menor severidade dos eventos climáticos.

O executivo alertou que, embora o país tenha acumulado aproximadamente R$ 500 bilhões em perdas econômicas provocadas por eventos naturais na última década, cerca de 95% desse valor não possuía cobertura securitária, ampliando a dependência de recursos públicos e o endividamento de famílias e empresas para a reconstrução das áreas afetadas.

Farme, dialogou ainda que esse cenário coloca o Brasil entre os países com maior gap de proteção diante dos eventos climáticos. Enquanto a média global de perdas não seguradas gira em torno de 60%, na América Latina esse índice alcança aproximadamente 80%. No caso brasileiro, após desastres como as enchentes no Rio Grande do Sul, o percentual supera 90%, chegando a cerca de 95% em alguns episódios.

“O seguro tem papel fundamental para reduzir o impacto econômico e acelerar a recuperação após os desastres”, comentou.

Outro dado levantado por Pedro, foi que que a baixa cobertura securitária vai além da proteção patrimonial e compromete a recuperação econômica após grandes desastres. Estudos apresentados durante o evento mostram que países com maior penetração do seguro conseguem preservar investimentos, acelerar a reconstrução e reduzir impactos sobre consumo, emprego e crescimento econômico. Já economias com menor cobertura tendem a recorrer ao endividamento público e privado, prolongando os efeitos financeiros das catástrofes.

O CEO acrescentou que esse cenário também influencia a percepção de investidores e agências internacionais de classificação de risco. Na avaliação dele, quanto maior a exposição aos eventos climáticos e menor a capacidade de proteção financeira, maior tende a ser o custo econômico para países vulneráveis.

O seguro protege a cidade formal, mas o risco mora na informal

O encontro contou também com a participação do cientista social e mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará, Élcio Batista, que defendeu uma revisão profunda dos modelos tradicionais de gestão de riscos utilizados pelo mercado segurador. De acordo com o pesquisador, durante décadas a precificação foi baseada no histórico de perdas e no comportamento passado dos segurados, lógica que tende a perder eficiência diante da crescente imprevisibilidade do clima.

“Os modelos de seguros sempre olharam para o passado. Agora precisamos aprender a olhar para frente”, frisou.

Na visão de Batista, as mudanças climáticas rompem a antiga divisão entre riscos urbanos e rurais, exigindo que governos, empresas e seguradoras passem a trabalhar com uma perspectiva integrada e de longo prazo. Nesse contexto, a palavra que deve orientar esse novo cenário é adaptação.

Batista também apresentou uma reflexão sobre a distribuição do risco climático nas cidades brasileiras. O seguro habitacional protege majoritariamente a chamada “cidade formal”, composta por imóveis regularizados e financiados, enquanto a maior exposição aos eventos extremos está concentrada na “cidade informal”, formada por moradias construídas em áreas de risco e, em sua maioria, fora do alcance da cobertura securitária como por exemplo favelas e subúrbios. A sua avaliação é de que o produto ainda está distribuído em sentido oposto ao da maior exposição aos riscos climáticos.

Ao citar o Japão como exemplo de planejamento para reduzir os impactos dos terremotos, o pesquisador defendeu que o Brasil também precisa abandonar uma postura reativa diante dos desastres e investir em prevenção. Ele lembrou ainda que a cultura da proteção continua sendo um desafio no país, onde apenas cerca de 17% da população possui por exemplo seguro residencial, sendo que uma parcela ainda menor desse montante conta com com uma possível cobertura para eventos climáticos inserida em suas apólices.

O pesquisador também comparou a realidade brasileira com a de outros países. Segundo os dados apresentados, a cobertura do seguro residencial alcança praticamente toda a população na França, cerca de 85% nos Estados Unidos e aproximadamente 75% no Reino Unido. No Japão, a adesão permanece elevada e crescente, enquanto no Brasil a contratação continua em torno de 17% e ocorre de forma ‘voluntária’.

“O brasileiro ainda costuma comprar a casa ou o carro antes de pensar em proteger esse patrimônio. Precisamos mudar essa mentalidade”, alertou.

Ele também chamou atenção para uma transformação demográfica que, em sua avaliação, reforça a importância do seguro habitacional como instrumento de proteção social. O envelhecimento da população brasileira, aliado ao aumento da frequência dos eventos climáticos, cria uma nova realidade em que proteger a moradia passa a ser também uma questão de política pública.

Ao encerrar sua participação, Batista recordou um alerta feito em março deste ano por Günther Thallinger, integrante do conselho da Allianz, de que o avanço das mudanças climáticas ameaça a própria capacidade de planejar o futuro e coloca em risco instrumentos como crédito, financiamento habitacional e seguros. Em seguida, deixou uma reflexão sobre o momento vivido pelo país diante do avanço dos eventos extremos.

“Diferentemente do terremoto, o nosso desastre avisa. Resta decidir se o aviso vira prêmio, norma e proteção, ou apenas a próxima manchete”, concluiu.

Veja o encontro completo na íntegra:

Nicholas Godoy, de São Paulo

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